terça-feira, 1 de janeiro de 2019

O Século XXI

Trata-se da observação cuidadosa de que estamos diante de circunstâncias novas e completamente inusitadas para a realidade e a vida do ser humano. Há aqueles que vivem à moda antiga. Apenas ambicionam ser e realizar o sonho coletivo, imitando tão somente os que alcançaram sucesso. Nascem, crescem, frequentam a escola, namoram, casam, trabalham, empregam-se, empreendem um negócio, divertem-se, enriquecem e morrem. Estes vivem à moda ultrapassada. Fazem parte da maioria dos que ainda se encontram no Século XX, sem noção de que estão vivendo o passado. Eles não entendem que tudo mudou, inclusive a própria mentalidade, bem como suas inquietações são outras. Teimam em afastar ideias de que vale a pena fazer tudo diferente.

São mudanças visíveis que se manifestam em diferentes setores da sociedade com impacto profundo no sentido do viver. As ambições comuns da vida moderna, que caracterizaram o pós-guerra e se mantiveram até o final do Século XX estão sendo substituídas pelo desejo maior de ser feliz, realizar-se e em entender o sentido e significado da vida. Tudo isto se deve a tendências que estão influenciando a mentalidade coletiva neste século, a exemplo das ideias que configuram o surgimento da Transumanidade como um novo Reino da Natureza. Está havendo a ascensão e maior valorização do feminino, que levará a sua supremacia como tendência que atinge todos os campos da vida humana que, cada vez mais convive com uma subjetividade e fluidez nunca vistas nas relações amorosas.

A Consciência tem se ampliado em face do acesso instantâneo a informações antes pertencentes ao Inconsciente e, agora disponíveis pela internet onipresente. Tal condição promove o nivelamento das pessoas, que se igualam não mais pelos cursos e formações acadêmicas adquiridas nas salas de aulas, mas pelo que acessam nas nuvens de seus provedores virtuais. Neste campo, as Redes Sociais se tornaram a realidade onde as relações humanas e a comunicação entre os indivíduos acontecem com maior frequência e intensidade do que a presencial. A Realidade Virtual está tomando o lugar da outra, que passa a ter menor importância.

A Transgeneridade como tendência coletiva que permite a manifestação das inúmeras identidades do ser humano, que tende a deixar a rigidez binária, adotando sua natureza essencial como representação legítima de si mesmo, denuncia mudanças significativas que não podem ser desprezadas. Em paralelo, ocorre o deslocamento do eixo que situava o sexo como o ponto central da discussão a respeito da identidade de uma pessoa, colocando o direito do humano em ser simplesmente ele mesmo como um valor inalienável. De fato, o ser humano assiste uma nova sociedade surgir. Para alguns, que optam em desqualificá-la, baseados em preceitos morais, resta assistir a vida passar, permanecendo a espera de algo mágico que os salve de sua própria ingenuidade.

domingo, 30 de dezembro de 2018

O ano que não deve acabar

Quando se olha a vida sob o ângulo pessimista, tudo deve e precisa mudar, pois nada resta que possa melhorar ou trazer esperança. Por outro lado, sob o manto do otimismo, corre-se o risco de aumentar o perigo de não se proteger dos tempos difíceis. Porém, a vida não tem apenas dois lados. Ela é por demais complexa e curiosamente disponível a mudanças, que surpreende os pretensos legisladores religiosos de plantão. Pensar que as tragédias, misérias e doenças definem a realidade, assemelha-se a enxergá-la como um paraíso cheio de benções e povoado de anjos alados. A realidade é um ente vivo na intimidade psíquica de cada ser humano, por ele alimentado e com quem contracena para seu próprio discernimento.

Nenhum ano começa ou termina, visto que um dia, uma hora ou um segundo não modificam a realidade interior de ninguém sem que a experiência do viver lhe traga algum acréscimo de habilidade permanente. Nem mesmo sua disposição em mudar, por mais intensa e importante que seja, é suficiente para lhe acrescentar um milímetro de experiência agregadora às suas competências para viver. Portanto, a passagem de ano é simbólica, com efeito regenerador para muitos, porém, para a grande maioria, logo depois, mais um grupo de experiências estará sendo colocado no esquecimento compulsório.

A exemplo disto, estamos assistindo as entranhas do poder político sendo colocadas para fora, expostas como carnes em um açougue. É o Estado brasileiro mostrando suas feridas mais profundas, numa demonstração de que, um dia, tudo vem às claras para que a verdade surja na consciência humana. Feridas abertas só cicatrizam quando os fatores agressivos são controlados para que cessam sua ação danosa. No caso em pauta, esses fatores ainda não cessaram, pois se encontram em todos os níveis da sociedade, qual erva daninha que se instala quando o jardim é mau cuidado. Pensar que o ano acabou é tentar passar uma borracha no que ainda não foi resolvido, pois os principais atores estão em cena e, em breve tempo, aqueles que foram presos voltarão ao cenário, mesmo que nos bastidores do poder. O problema também está na fragilidade dos processos de obtenção de recursos, na concentração de poder em mãos de poucos, no pouco valor atribuído às instituições de controle e fiscalização dos poderes bem como na qualidade do eleitor brasileiro.

Não o ano não acabou, nem deve acabar tão cedo. Que ele se perpetue na dimensão do que tem sido o clamor popular de justiça, honestidade e cidadania. Todos esperam que o próximo ano seja melhor, como quem anseia por boas notícias em tempos de crise. Que venham boas notícias, mas é preciso que se esgotem as más e se estanquem as causas geradoras, pois ainda estamos na fase de descobrir o que já foi feito, sem cuidar simultaneamente da prevenção.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

O dono da festa

O Natal é a comemoração do nascimento de um judeu que fez e faz a diferença para mais de dois bilhões de adeptos do Cristianismo. Por outro lado, a passagem do Ano Novo significa a comemoração da mudança do velho para o novo, da esperança de que algo novo e bom vai acontecer em comparação ao passado, que deve morrer, sendo substituído pelo recomeço. Uma nova etapa que venha trazer melhores frutos que a anterior. Não é coincidência que as datas sejam próximas. Evocam sentimentos muito parecidos.

Para muitos o Natal evoca renascimento, para outros presentear, alguns consideram uma festa em família, confraternização, fotos bonitas, palavras repetitivas de felicidade. Nela se dá tudo que não acontece no dia a dia em matéria de expressar o desejo de felicitações em memória do dono da festa: Jesus. Esta memória se refere a que fatos da vida dele? Para alguns, ao seu sofrimento, para outros, ao seu perdão incondicional, para muitos, a sua capacidade de amar a todos. Vários são os motivos do Natal, porque muitos foram os feitos que marcaram a vida dele. Alguns apresentados de forma mítica, outros com grande possibilidade de terem sido reais.

O que mais me impressiona naquele judeu não seus feitos pontuais, mitificados ou não, nem qualquer dos milagres que tenha praticado, muito menos a sua crucificação, por mais injusta que possa ter sido. Creio que ele pagou o preço por sua irreverência e pelo inusitado de sua pregação. Para mim, seu maior exemplo, digno de ser para sempre imitado, independentemente da opção religiosa, foi sua capacidade de se autodeterminar e por uma permanente disposição em viver e realizar-se.

Sim, foi seu invejável estado de empoderamento para realizar o que se autodeterminou. Isto é fenomenal, sem menosprezo aos seus outros feitos, portanto, o grande exemplo que ele deixou foi sua enorme e constante disposição para o viver, independentemente do que o destino lhe reservasse.

A passagem para o Ano Novo, o famoso Réveillon, traz um misto de esperança, tomada de decisões importantes, abandono de velhos hábitos e confiança no futuro, sobretudo com a certeza de que o indivíduo estará sob a proteção divina.

São duas festas que produzem estados psicológicos muito semelhantes. Portanto, seja você também o dono da festa, não pelo Natal, pelos presentes, pela alegria, pelas felicitações ou mesmo pelo que doou a alguém necessitado. Nem pela esperança que permeia a passagem do Ano Novo. Tudo isto tem seu valor. Porém, seja você o dono da festa por uma vida intensa, ativa, produtiva em favor de seus ideais, sobretudo, daqueles que envolvem a construção de um mundo melhor e de uma sociedade onde sua ética seja superior e justa. Sim, a vida dele foi uma verdadeira festa interior, pois a realizou com maestria e autodeterminação. Faça o mesmo com a sua vida.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Zika e as doenças da sociedade

Sim, nossa sociedade está doente. A Zika é símbolo disto. A doença não é só a falta de infraestrutura urbana, educação, segurança, saúde ou de moradia digna. Como a sociedade se encontra, representa o estágio de desenvolvimento em ela se encontra. Porém, a doença perigosa é a falta de um sentido maior para o cidadão além daquilo que a sociedade tem apresentado. Qual a filosofia de vida que norteia as ações e interesses das pessoas que aqui vivem? Tudo indica, com exceções, que é o levar vantagem a qualquer preço com desrespeito ao direito de todos. Sem este sentido, a vida fica vazia, pobre e aberta aos desvios e doenças típicas do cotidiano da sociedade.

A sociedade é um organismo vivo que se assemelha ao corpo humano. Há um cérebro, um coração, um sangue e, acima de tudo, um indivíduo que o comanda. Metaforicamente, o sangue é o trabalho, constante que se vê no empresário, no comerciante, no servidor público, no operário de todos os tipos, portanto, na força do trabalhador em todas as suas expressões. A doença acontece quando não se quer trabalhar dando o seu melhor, quando se impõe altos impostos ao cidadão, quando o obriga a que padeça para ter acesso aos serviços públicos, quando se insere a corrupção como prática comum ou quando se restringe a liberdade de expressão.

O coração é a família, com seus vínculos, seus valores, sua condição de espaço de pertencimento e vivência do amor, cujo adoecimento ocorre quando seus responsáveis se ausentam do dever de educar e dar o exemplo aos seus filhos. O cérebro é o Estado com suas leis, com a constante preocupação em garantir o bem-estar coletivo em todos os níveis. Seu adoecimento ocorre quando pessoas, grupos políticos ou grandes empresas se arvoram em querer ocupar aquele lugar de poder e de domínio.
No entanto, a doença maior é a falta de um sentido e de uma filosofia existencial para o indivíduo que comanda o organismo, portanto, para o cidadão, verdadeiro autor de seu destino é proprietário de si mesmo.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Violência: sintoma ou doença?

Os números não mentem. Foram mais de seis mil mortes intencionais na Bahia em 2015. A Bahia é o estado campeão em números absolutos no Brasil. Aqui se mata intencionalmente mais do que em São Paulo ou no Rio. A intenção de matar caracteriza o estado bárbaro em que se encontra aquele que assim age, distante do respeito à vida, da crença nos mecanismos legais de justiça e na capacidade de agir por meios civilizados. Será que merecemos estes números? A violência não se restringe às ruas. Está nas escolas, nos locais de trabalho, no ambiente doméstico, bem como onde esteja um ser humano insatisfeito consigo mesmo e incapaz de respeitar a vida.

Afirma-se que as origens estão na pobreza, na desigualdade social, no tráfico de drogas, na carência educacional e nas condições subumanas em que vivem as pessoas. Não resta dúvida que são fatores que contribuem para a violência e que devem ser resolvidos pela sociedade. Porém, é preciso entender que vivemos uma época de grande exposição da falta de ética e de desrespeito à vida coletiva, estampadas na mídia. Esta falta de ética, observada principalmente no mundo político, merece atenção por parte daqueles que elaboram as políticas públicas, pois o combate deve ser amplo e irrestrito.

Na mente humana há elementos que impulsionam os comportamentos, cuja origem não pertence a consciência. Nem tudo que fazemos tem explicação lógica ou mesmo que possa ser compreendido pelo que se passa na consciência. Isto não exime a ninguém de responsabilidade na prática de qualquer ato. Mesmo quando se evoca a insanidade mental de quem comete um crime, não se pode excluir sua responsabilidade nem a aplicação de algum tipo de restrição social. Portanto o problema da violência não se resume somente à melhoria na educação, mas ao trabalho conjunto de toda sociedade em favor de um problema eminentemente ético e de origem milenar. A ética deve ser inserida em todas as atividades humanas, desde o berço onde se nasce até a mais importante interação social do indivíduo. Ética em tudo.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Vaidade

Sou uma pessoa vaidosa. Minha vaidade é estrutural, pois é antiga e atinge disposições internas que determinam meu modo de viver. Mesmo considerando que minha imagem física não é fora dos padrões de normalidade, minha vaidade não se refere às características estéticas de meu corpo, nem tampouco diz respeitos as vestes de marca ou adereços que uso. Muito embora considere que tenho razoável conjunto de conhecimentos intelectuais, fundamentados na cultura que acumulei pelos estudos e boas leituras que realizei, ainda não é por esta razão que sou vaidoso.

Muito menos se trata de minha capacidade de falar em público, pelas palestras que proferi, pois em algumas vezes vejo que não são tão boas como gostaria. Não tenho vaidade pelos bens materiais que possuo, pois sei que sou apenas administrador, já que um dia a morte vai me retirá-los por absoluta falta de posterior uso. Tampouco se deve às condições profissionais de meu trabalho e aos seus bons resultados, que me conferem relativo reconhecimento público, pois este é fruto de trabalho intenso e dedicação constante.

Certamente o bem que fiz e as boas obras que realizei são importantes, mesmo que menos do que poderia e gostaria, mas ainda não é por esse motivo que me envaideço, pois considero obrigação no exercício da cidadania. Minha vaidade não é pela família que construí nem pelos filhos que criei, mesmo vendo o quanto são amorosos e gratos a mim, pois quem cuida de seu ninho tem o conforto futuro assegurado. Considero que o lar é o melhor lugar onde se deve viver, portanto, o primeiro em que devemos aplicar tudo quanto traz harmonia e felicidade.

Mesmo tendo muitas razões para ser vaidoso, que trariam orgulho a qualquer pessoa, considero, no entanto, que estas conquistas fazem parte dos objetivos imediatos de toda pessoa minimamente adulta. Minha vaidade vem da alma, de minhas entranhas que gritam com uma disposição enorme de viver e realizar. Condição que me traz um estado permanente de prontidão para atuar na vida em favor do bem-estar pessoal e coletivo. Esta disposição compara-se a uma perene cachoeira que faz jorrar a água límpida que lhe dá vida em abundância.

A minha é mais do que a vaidade comum, pois compreende uma certeza interna de que é possível estar no mundo sempre intervindo em sua organização para que se torne cada vez melhor e mais justo.

Minha vaidade vai na direção da certeza de que, além de cuidar de interesses próprios, devo, concomitantemente, exercer a cidadania plena a serviço da sociedade da qual faço parte e de onde retirei tudo quanto foi útil para me tornar quem hoje sou, cabendo-me devolver na forma de valores éticos, bem como em ações que a tornem melhor.

Pretendo manter minha vaidade até que alcance os objetivos precípuos de sua existência em minha natureza interior.

domingo, 16 de dezembro de 2018

Transumanos

Antigamente eram três os reinos da natureza: Mineral, Vegetal e Animal. Hoje assistimos a necessidade de incluir mais uma categoria. Aos três primeiros reinos, foram acrescentados o Protista, o Monera e o Fungi, deixando de fora os vírus. Trata-se, agora, da categoria Transumano (ou transhumano). A ampliação das capacidades intelectivas humanas, que vão além do que seu organismo biológico naturalmente pode oferecer, parece não ter limites. Assistimos a uma revolução silenciosa na manifestação da inteligência humana aplicada ao seu viver. O uso cada vez maior de equipamentos e acessórios que possibilitam que a vida aconteça por mais tempo, de forma mais confortável e com menor esforço, tem modificado o conceito de humano como um ser exclusivamente biológico.

O robocop, o cyborg e os indivíduos que usam qualquer tipo de prótese mecânica não são referências para justificar a ideia do transumano, mas, principalmente, os que estão incorporando em sua vida biológica e psíquica equipamentos, eletrônicos ou não, quase indispensáveis ao seu viver, ampliando a inteligência humana, reduzindo o adoecimento, bem como aumentando suas competências físicas e psíquicas. Ansiando por permanecer saudável e vivendo por longo tempo no corpo e na consciência de si, o ser humano, talvez sem o perceber, vai se distanciando de sua exclusiva dependência de um organismo biológico. Ao ampliar seu tempo de vida no corpo, utilizando-se de meios exógenos, o ser humano começa a se diferenciar de seus semelhantes pelo uso de implementos auxiliares no seu viver. Os transumanos são indivíduos distintos entre si, por competências manifestamente diferentes pelo que integrou às suas habilidades adquiridas pelos meios convencionais.

Quando alguém cogita em implantar um chip biológico que lhe permitiria acessar instantaneamente todo o conhecimento disponível em sites de buscas na internet, torna-se diferenciado e em vantagem em relação aos humanos que não se utilizam desta atualização. O outro, que se utiliza de uma fita colada ao corpo, que amplia sua força muscular ou aquele que utiliza um exoesqueleto para se locomover e assim aumentar sua mobilidade, estão entrando na categoria de transumanos. Da mesma forma, aquele utiliza um óculos que lhe permite acessar instantaneamente informações numa nuvem, também nesta categoria se enquadra. Em acréscimo, ao utilizar o celular para múltiplas atividades e como meio de identificação de si mesmo, ampliando suas competências pessoais, o indivíduo está, silenciosamente, abrindo a uma nova categoria que vai além de sua condição humana.

Humano ou transumano, independentemente da nomenclatura que se adote, o ser humano só não deve continuar sendo desumano no trato com a natureza, com seu semelhante e consigo mesmo.