quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Fidel

Dizia John Donne, poeta inglês do século XVI, “nenhum homem é uma ilha”. Claro que não se aplica ao cubano Fidel Castro, cuja vida se confundiu com a história da ilha de Cuba. Ali ele reinou por muito tempo, sobrepondo sua personalidade à cultura vigente. Ideologias à parte, sem qualquer crítica ou adesão ao regime por ele imposto ao seu país, Fidel mostrou, nos quase cinquenta anos em que dirigiu o povo cubano com seu carisma e grande sensibilidade, que se pode alcançar a alma das pessoas, oferecendo-lhe o de que precisam.

Ao encarnar o antiamericanismo, inspirou muitos povos e gerações que acreditavam no ideal comunista, fomentando a formação de partidos políticos, grupos ideológicos, guerrilhas e oposições a regimes de Direita. Tornou-se uma lenda, um ícone, porta-voz de um povo, símbolo de uma ideia e de um ideal coletivo, capaz de influenciar diferentes pessoas em muitos países do mundo. Independentemente do aspecto politico-ideológico que suscita controvérsias, é de admirar alguém que consegue a proeza de ser a unanimidade entre milhões de pessoas.

Conduziu um povo que se deixou influenciar por ideias comunistas e que, por sua vez, fomentou o surgimento do personagem que ele se tornou para o mundo. Carismático, cativante e procurado pelos jornalistas do mundo inteiro para dar alguma entrevista em que discorresse sobre política e, principalmente, sobre os Estados Unidos. Ele encarnou a antítese no Ocidente, opondo-se ao gigante americano, baluarte do capitalismo no mundo. Era como reviver Davi contra Golias. Uma pequena ilha, aos pés do imenso território americano, ousava impor-se soberanamente.

Atraiu a simpatia mundial, extrapolando questões ideológicas e se impondo contra o imperialismo dos Estados Unidos, usurpador do nacionalismo e da soberania dos povos. Fidel e o povo cubano mostravam que a dignidade de uma nação não pode ser vendida. Sua ascensão em plena guerra fria, tornou-o a menina dos olhos da então União Soviética, que sustentou a ditadura, usando Cuba contra seu principal rival.

Sua personalidade extrapolava os limites da pessoa para encarnar as aspirações dos milhões de cubanos que aspiravam sua soberania. Por esta razão, Fidel já não falava mais de si, de sua singularidade, mas da alma coletiva que representava. Sua individualidade ficou de lado, dando lugar ao que há de comum em cada ser humano. Certo ou errado, ditador ou salvador, tirano ou não, Fidel deixou de ser uma pessoa para se tornar uma instituição pública, cedendo terreno para o que ele representava. Assim ocorre com muitas figuras públicas que, sem que o percebam, saem de cena para representar um papel, dando lugar ao que o povo deseja. Anulam-se, perdendo o que há de mais precioso no ser humano, sua singularidade.

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