terça-feira, 13 de novembro de 2018

Heróis

Dizem que precisamos de heróis para nos espelharmos. Fala-se até que, em um povo sem heróis, os cidadãos vivem a deriva, sem rumo e sem sentido. Talvez não seja bem assim. O que são os heróis? Pessoas que se assemelham a semideuses, os que vencem batalhas, os que matam monstros devoradores, os que possuem espadas e escudos nas suas lutas diárias, os que superam o mal e protagonizam o bem? Ou são os ídolos artistas, jogadores de futebol, atores ou as figuras públicas de renome? Serão os medalhistas, os que representam o país nas disputas externas ou os políticos que governam o país?

Melhor procurarmos heróis onde eles de fato estão. São e fato nossos heróis: as donas de casa semialfabetizadas que não tiveram acesso à escola, e que nem por isto deixam de cuidar de seus filhos; os que moram em subabitações, por não terem acesso à uma casa própria, mas que valorizam o lugar; os que saem na madrugada para o serviço em locais distantes de suas moradias, mas que não faltam ao trabalho; os que adoecem e permanecem com suas dores, sem direito a uma assistência médica digna, em frente a hospitais sem condições de atendimento, mas que mesmo assim não deixam de buscar um trabalho digno; os que vivem a cata de um emprego e se submetem a trabalhos mal remunerados e em condições degradantes, mas mesmo assim pagam impostos; os que são discriminados por serem parte das minorias (religiosas, sexuais, raciais etc..), mas mesmo assim não perdem a dignidade; os que vivem com medo da violência e, por falta de outra opção, saem às ruas no exercício de sua liberdade; os professores que dão aulas em escolas deterioradas, com salários aviltantes, sob risco de serem atacados pelos alunos, mas que continuam seu ofício; os idosos, invisíveis na sociedade, sem cidadania, mas que continuam em busca do viver; os deficientes, que não têm acessibilidade, mas que continuam lutando pelo respeito que merecem.

Estes são os heróis, que merecem o prêmio da libertação da opressão, de ficarem livres da corrupção e de alcançar a verdadeira democracia em uma sociedade igualitária. Não precisam da piedade nem da esmola consolatória, mas de respeito. Merecem o lugar de heróis, como protagonistas da vida, como donos do próprio destino.

Eles não são heróis por serem medalhistas, mas por vencerem a vida lutando com todas as forças para alcançar o que lhe é de direito. Alguns aparentam lentidão e descaso pelo esforço, por serem vítimas de um sistema que os escravizou, discriminou e lhes usurpou a vida com dignidade.

Por eles, e pelos que querem uma sociedade melhor, façamos o máximo para torná-la igualitária, ética e justa, para que os filhos de sua terra alcancem os ideais que imaginamos para a felicidade que julgamos merecer. O prêmio a eles não deve mantê-los como se encontram, mas que os coloquem ao lado daqueles que se julgam melhores, mais capazes e merecedores das benesses da vida.

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