sábado, 15 de dezembro de 2018

Sombra social

Paira sobre as consciências humanas uma sombra que lhes determina o humor, o estado psicológico, a disposição de viver e de enfrentar os naturais desafios da vida. Esta sombra rapidamente se espalha de forma a atingir todos aqueles que sintonizam com o descrédito de si mesmo. Sem o saber, qualquer pessoa, o cidadão comum, está sujeita a ser cooptada por aquela sombra, bastando que não se perceba dona de si mesmo, apta a construir seu próprio destino ou que desacredite de seu potencial de realização pessoal. Quando encontramos muitos indivíduos que se submetem à influência sutil e perniciosa daquela sombra, a sociedade se torna medíocre e entra em estagnação. São indícios desta insidiosa e traiçoeira condição quando as pessoas aceitam tudo por menos, demonstrando pouca exigência à qualidade do que fazem ou recebem e a ausência de senso crítico ao que deveria ser proporcionado em excelência.

Quando se observa que as pessoas dedicam pouco tempo ao esforço para sair de condições sofríveis de vida, que agem de forma semelhante ao primitivo e que utilizam a violência como meio de obtenção de recursos, percebe-se que a sociedade ainda se encontra num estado bárbaro. Quando os indivíduos atuam de acordo com valores antiéticos, não agem dando o melhor de si quando no exercício de funções públicas e demonstram desprezo ao exercício da cidadania quando responsável pelo seu cumprimento, vê-se que a sombra dominou a sociedade. Nela predomina a excessiva tolerância ao próprio erro e as condições inferiores de vida, pois não enxergam que podem superar seus problemas.

A sombra também se estende atingindo aos que deveriam, por vocação, empreender, desestimulando-os ou o fazendo de forma tímida mesmo quando as condições macroeconômicas são favoráveis. A sociedade apresenta pouco empreendedorismo e sem incentivos a programas de inovação tecnológica, atrasando o desenvolvimento de projetos que proporcionariam melhoria da produtividade industrial e da qualidade de vida. Observa-se a baixa qualidade na confecção de produtos de uso comum e, principalmente, de venda, em que o consumidor é indefesamente lesado.
Trata-se, portanto, de uma grande sombra que se projeta sobre o estado de espírito das pessoas, promovendo atrasos que interferem na economia, na politica, na religiosidade, na mobilidade, na alimentação, nos serviços públicos e no laser, com graves consequências para o desenvolvimento social e para os direitos humanos. A degradação é observável quando o poder público faz por menos, planeja por menos e executa por menos, em desrespeito à vida e a inteligência humanas.

O combate a esta sombra inicia-se quando o indivíduo compreende seu papel de agente de transformação social, de responsável pelo destino pessoal e coletivo e quando percebe que o mundo em que vive é reflexo de si mesmo.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Retórica da moral

O desenvolvimento de uma sociedade está diretamente ligado a ética de seus cidadãos. País sem ética é consequência da ruína moral de seus cidadãos. Muito antes de Cristo, a retórica era velha conhecida da Grécia antiga, quando o sofista Górgias introduziu o tema em suas aulas em praça pública, através de palestras cobradas. Era a arte de falar bem visando impressionar ou convencer o outro. Ter o domínio do vernáculo para expressar ideias é desejável a qualquer ser humano que queira se comunicar bem. Quantos não gostariam de, pela palavra, serem aceitos, convencerem ou venderem bem suas ideias? Porém, quando se trata de moral, as palavras não são suficientes, nem conseguem dizer o que se passa no mundo íntimo do ser humano. O que se diz nem sempre é o que se sente, se pensa ou se faz.

No domingo, assistimos a Câmara dos Deputados, atendendo ao clamor popular, optar por uma mudança no comando executivo do país. Foram muitos discursos, muita retórica e muitos apelos à moralidade. Viu-se que não basta ser nem parecer ser uma pessoa ética. A retórica foi bem empregada pelos que defendiam um lado e o outro. Vê-se que é preciso mostrar os feitos éticos para que haja uma real mudança na política brasileira. Os interesses coletivos falaram mais alto do que o mérito da questão que foi votada. A classe política mostrou que atua corporativamente, refletindo, na retórica repetitiva dos discursos, e na performance de muitos, a estrutura da sociedade que representa. Em geral, prevaleceu a máscara social nas relações, em detrimento da transparência, da coerência de princípios e da ética fidedigna aos interesses coletivos.

Sim, precisamos de ética, de coerência ideológica, de menos fisiologismo e de mais transparência no exercício dos mandatos que são exercidos em nome do Estado. Ao cidadão brasileiro, resta esperar que a ética nasça na consciência dos legisladores para que deixem de se digladiar e de defender interesses escusos em nome da democracia, que juraram defender.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Reino Desunido

Os britânicos parecem arrependidos de terem votado a favor da saída do Reino Unido do bloco da União Europeia. O reino, ao que tudo indica, parece desunido, pois os escoceses que apoiaram a permanência deles no bloco bretão, não gostaram do resultado, pois não querem sair do bloco europeu. A desunião é reflexo de um mundo ainda não unido nem fraterno com seus cidadãos. A intolerância ao estrangeiro grassa num planeta cheio de contrastes, caracterizado pela diversidade cultural e com interesses econômicos e sociais marcadamente etnocêntricos.

A Inglaterra, principal interessada na saída, movida pela forte reação à imigração do leste europeu que lhe toma empregos de seus cidadãos, coloca em evidência uma velha temática preconceituosa: a xenofobia. O recado vale para todas as minorias, sinalizando que não devem esperar benefícios das maiorias, mas conquistar seus direitos a partir de competências próprias, sem depender de migalhas, muito menos do reconhecimento de direitos sem deveres. Parece que benefícios que visam reparar velhas injustiças soam como sinais de indignidade e menos valia, promovendo uma nova forma de discriminação.

O mundo ainda discrimina, retalia e exclui todo aquele que não obedece seus padrões ou que se encontra fora das fronteiras culturais preestabelecidas num determinado território. O ideal de uma sociedade universal, constituída de cidadãos do mundo e dos filhos de um mesmo Deus está longe de acontecer, mais parecendo uma proposição arquetípica improvável de ser materializada. Há ainda uma certa dificuldade na aceitação da unidade universal do ser humano, proclamada por todos, mas não aplicável quando interesses econômicos falam mais alto. Talvez ocorra quando o ser humano, sem deixar de perceber sua singularidade, enxergar sua parte coletiva, que o nivela e iguala aos outros e que o leva a cuidar de tudo quanto signifique viver em sociedade. Nada mais evoluído do que viver numa sociedade que inclua todos e que promova qualidade de vida.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Psicologização

O natural gosto humano pela Psicologia nasce do mistério que se esconde por detrás da ignorância que tem de si mesmo. Desde Freud, que postulou o Inconsciente como depósito do que não cabe na Consciência, o ser humano anseia pelo entendimento de como funciona sua mente, querendo descobrir o que não sabe de si mesmo. Todos querem descobrir sua própria natureza e como funciona sua mente. Seus anseios, medos e angústias podem e devem ser resolvidos na medida em que conheça o mistério que há por detrás de suas origens. A popularização da Psicologia parece ser um fenômeno relacionado com o aumento da capacidade do ser humano em subjetivar e decodificar os sinais e símbolos de seu Inconsciente. Mas também vem de sua necessidade de sair do lugar comum, de não mais enxergar a vida e os fenômenos sociais pelo modo oficial e politicamente correto de ser. 
Informações oficiais, ordens de conduta correta e modo de viver religiosamente adequado perdem espaço para uma outra maneira pessoal de ser e viver. 

O individualismo é o mal decorrente da psicologização da vida humana. Todos parecem ter uma forma particular de entender e de fazer o que é melhor para si mesmo. Psicologizar é uma natural tendência que leva o ser humano a múltiplas escolhas, fugindo de um padrão coletivo e comum de agir. Esse foi um equívoco do Comunismo ao querer um modo único de vida e comportamento para o ser humano. Desprezou a subjetividade, a psicologia da pessoa e as diferenças entre os seres humanos. Mesmo com direitos e deveres iguais, possuímos históricos psíquicos diferenciados e capacidades dessemelhantes. O fenômeno de se afastar cada vez mais de suas tendências coletivas para encontrar um modo pessoal de viver, seguindo a tendência individualista contemporânea, é típico de uma sociedade que prima pelos direitos humanos. Jung já declarava a necessidade de Individuação. A Psicologia contribui para a diferenciação e simultaneamente a humanização das pessoas, na medida em que propõe a existência do Inconsciente como grande campo de informações do indivíduo sobre si mesmo e sobre o mundo onde vive. 

Psicologizar é impor-se contra a coletivização e massificação da pessoa humana. Desde o início do cinema, nos últimos anos do Século XIX, o ser humano passou a contar com a divulgação de imagens como meio de ampliar suas percepções do que era declarado ou escrito. De lá para cá, aperfeiçoou técnicas, ampliou percepções, culminando com as infinitas possibilidades proporcionadas pelo mundo virtual. O ser humano segue sua incrível saga, com a contribuição da Psicologia, em busca do entendimento do mundo e de si mesmo.


terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Psicopatia

Doença assintomática, de diagnóstico tardio, com poucos estudos e de tratamento inespecífico. Em geral, os que são classificados tecnicamente como psicopatas agem em surto e não se dão conta da gravidade do que cometem nem apresentam reflexões emotivas de seus atos, não demonstram remorso ante os danos que causam, não são sensíveis a punições nem se preocupam com sofrimento pessoal. Tecnicamente são diagnosticados como portadores do Transtorno da Personalidade Dissocial, que abrange outros tipos mais comuns de diagnóstico precoce e encontrados em todos os níveis da sociedade. Estes últimos, ascendem na adolescência com pequenas atitudes desproporcionais ao senso comum que vão desde a crueldade com animais e pessoas até a destruição de ambientes de uso público, com acessos de raiva quando contrariados, em geral, insurgem-se contra a autoridade.

Algumas formas inadequadas de convivência, de perversidade, de depredação do patrimônio público, de forte e momentâneo descontrole emocional não são resultantes da psicopatia, pois apenas servem de sinais do baixo nível de sociabilidade do povo que assim procede pela falta de sentido da vida e de cidadania. O fundamentalismo religioso exacerbado também se aproxima da psicopatia pelas consequências danosas ao indivíduo e a sociedade, alvos de sua tentativa de conversão à força, porém seus adeptos não são psicopatas pois agem conscientes e deliberadamente. Pela mesma razão, não são psicopatas os terroristas, os que assassinam para roubar, os corruptos, os que planejam seus delitos visando exposição de sua imagem ou propagação de conceitos fundamentalistas, bem como os que apresentam alta agressividade nos surtos psicóticos.

Os psicopatas são tomados por descomunal ideia que os levam a ações desproporcionais ao seu desejo consciente, agindo à revelia de qualquer lógica racional. Tudo indica existir uma forte pressão inconsciente para o cometimento da atitude ou conjunto de comportamentos que excedem a normalidade e que pode ser enquadrado como algo hediondo.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Psicologia e Religião

Vivemos numa época em que a diversidade se apresenta sob muitos aspectos, principalmente no mosaico religioso que caracteriza a cultura brasileira. Em que pese alguns exemplos de intolerância, o sincretismo é regra na atitude, nas manifestações coletivas e na linguagem popular dos diversos crentes e em seus cultos. Raro encontrar um ritual que não tenha sido influenciado pelo meio ou por outro seguimento religioso, pois se trata de algo que passa pelo psiquismo humano. Não há religião “pura” nem manifestação ligada ao sagrado que não sofra influência de sua época.

Religião é atitude frente ao sagrado por força de uma tendência inconsciente, portanto, pertencente ao automatismo psíquico que impulsiona o ser humano a uma busca inexorável ao que lhe transcende. Antes de ser uma manifestação cultural, determinada por fatores externos, é uma realidade psicológica que se impõe à mente consciente, que teima em materializar como símbolo o que desconhece. Mesmo quando a negação ao transcendente surge no formato de ateísmo, trata-se de uma exigência psicológica que tenta conter e sufocar a invasão inconsciente para que não mais anule a singularidade e a autonomia da pessoa humana.

A psicologia, em que pese seu cientificismo, compreende a diversidade religiosa como alta capacidade psíquica para a construção de sistemas adaptativos ao que lhe determina a própria mente. Por esta razão, qualquer fundamentalismo, exclusividade religiosa ou conversão forçada representam atraso psicológico ou manipulação absurda e ditatorial da pessoa humana. Considerando que a escolha religiosa individual é um mecanismo de equilíbrio psíquico, seja para aceitar ou negar preceitos relacionados ao sagrado, cabe-nos o respeito e a consideração por qualquer de suas manifestações, pois se trata de algo tão incognoscível quanto a própria definição da palavra Deus. Nada há mais respeitoso do que a integridade da vida e de como se manifestam as crenças que compõem o significado que o ser humano atribui a sua existência.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Psicologia dos Sonhos

Sonhar é uma atividade inerente ao humano e se processa abaixo do nível da consciência. Ali, na mente inconsciente, os sonhos ganham vida antes de chegarem a atingir o córtex cerebral. Estes são sonhos cujo simbolismo ultrapassa a compreensão e a lógica da consciência. Há outros, que acontecem quando o indivíduo está acordado, que são elaborados pela consciência, e que costumam invadir o imaginário popular estimulando o ser humano nas suas realizações. São sonhos que nem sempre são realizáveis, mas que costumam impulsionar os desejos e se tornarem os principais motivos das realizações humanas.

Sonhar é preciso, mesmo que sejam sonhos improváveis de realização, pois são alimentadores da fé, da ilusão e de grandes conquistas para o indivíduo e para a sociedade. São inúmeros os casos em que sonhos viraram realidade, proporcionando importantes conquistas para a Humanidade. Cito o sonho de Santos Dumont, ao querer voar dando origem ao avião, favorecendo o surgimento da indústria aeronáutica, otimizando a mobilidade do ser humano. Os sonhos movimentam a vida, pois alimentam a esperança, fomentam a criatividade e impulsionam o progresso da Humanidade.

Pergunto-me qual é o sonho do cidadão brasileiro, que é alimentado diariamente e se materializa como sociedade? Talvez não seja possível definir, tal a diversidade cultural que ocorre em seus imensos rincões. Pelos últimos acontecimentos políticos, em que o submundo da república foi exposto nas páginas policiais de todos os veículos de comunicação do país, talvez o grande sonho seja “tolerância zero para a corrupção”. Para que este mais recente sonho se materialize é preciso que o próprio cidadão tenha outros, mais imediatos e que dependam exclusivamente de si. Refiro-me ao empreendedorismo, ao desejo de vencer pelo trabalho honesto, ao desejo de que seu esforço resulte não só no bem pessoal como no bem coletivo. O sonho de um indivíduo pode se tornar o de muitos, quando objetiva a construção de uma sociedade com justiça e igualitária.